As taxas do Tesouro IPCA+ registraram quedas significativas recentemente, um movimento que reacende o debate sobre a precificação dos juros reais no Brasil e o potencial de lucro para investidores. Para quem souber se posicionar, essa correção pode não apenas superar o CDI, mas entregar rentabilidades robustas, especialmente em cenários de novas reduções.
A Ghia Multi Family Office, por exemplo, não apenas anteviu essa dinâmica, mas fez dela a pedra angular de sua estratégia, elevando a exposição a títulos públicos de inflação a patamares históricos. A gestora aposta que um recuo modesto nos juros reais já é suficiente para catalisar ganhos expressivos, transformando o Tesouro IPCA+ em um dos ativos mais atraentes do mercado.
Tesouro IPCA+: A Aposta Ousada da Ghia Multi Family Office
Enquanto o mercado se mostrava cauteloso, preocupado com o cenário fiscal, eleições e turbulências externas, a Ghia Multi Family Office adotou uma postura audaciosa. Mês a mês, a gestora aumentou sua posição em NTN-Bs, alcançando entre 25% e 30% dos portfólios alocados nesses títulos. Para Tadeu Arantes, head de alocação da Ghia, a precificação elevada das NTN-Bs “não faz sentido”, indicando uma distorção que representa uma oportunidade ímpar.
O Potencial de Lucro com a Queda dos Juros Reais
Um estudo da Ghia revela o impacto de um simples ajuste nos juros reais. Um recuo de apenas 50 pontos-base (de 7,5% para 7,0%, por exemplo) pode gerar retornos surpreendentes, superando com folga o CDI projetado de 14,3% em um horizonte de 12 meses, desde que o título tenha uma duration mínima de seis anos. Veja os potenciais ganhos:
- Tesouro IPCA+ 2032 (duration de 6,3 anos): Rendimento de 15,2% em 12 meses.
- Tesouro IPCA+ 2035 (duration de 9 anos): Rendimento de 16,4% em 12 meses.
- Tesouro IPCA+ 2050 (duration de 24,3 anos): Rendimento potencial de até 23,7% em 12 meses, embora com risco amplificado.
É crucial notar que vencimentos mais curtos, como o Tesouro IPCA+ 2028, podem não capturar essa valorização de forma eficiente, entregando apenas 13,2% no cenário de queda de 50 bps, abaixo do CDI. Por outro lado, vencimentos muito longos, como o 2050, amplificam o risco: uma elevação de 1 ponto percentual nos juros reais poderia acarretar uma perda de 12,8% no período. Por isso, a Ghia prefere títulos com vencimento entre 2030 e 2032, buscando um equilíbrio entre potencial de ganho e gestão de risco.
Por Que os Juros Reais Brasileiros Estão Distorcidos?
A tese da Ghia se baseia na avaliação de que os prêmios atuais são “exagerados” e desproporcionais ao risco real do Brasil. A gestora aponta que o Brasil pratica um dos maiores juros reais ex-ante do mundo, um indicador que subtrai a inflação projetada da Selic atual. Em março, esse juro real ex-ante alcançou cerca de 9,5%, colocando o Brasil como o segundo maior pagador global, atrás apenas da Turquia (10,38%).
A Incompatibilidade do Risco-País
O problema, segundo a Ghia, reside na “companhia” que o Brasil mantém nesse seleto grupo de juros altíssimos: Rússia (em guerra e sob sanções) e Argentina (enfrentando grave problema fiscal). O Credit Default Swap (CDS) de 5 anos do Brasil, um seguro contra calote, está em 126 pontos, enquanto o da Rússia supera os 13 mil e o da Argentina ultrapassa mil. A Turquia, embora com juros altos, tem CDS em 231. Quando comparado a países com risco similar, o contraste é ainda mais gritante:
- México: CDS de 86 pontos e juro real ex-ante de 5,39%.
- África do Sul: CDS de 140 pontos e juro real de 5,22%.
“Não faz sentido o preço que a gente vê hoje”, resume Arantes, reforçando a crença na distorção. Essa precificação excessiva é ainda mais evidente no spread do juro real de 10 anos do Brasil em relação às TIPS americanas (títulos de inflação dos EUA), que está em 5,65 pontos percentuais, acima de todos os pares emergentes e da média histórica, mesmo após ajustes pelo CDS. Inclusive, em momentos de alívio no cenário internacional, como o observado recentemente, o Tesouro Direto já mostrou sua capacidade de reagir com quedas nos juros.
Dívida Pública: Um Cenário Insustentável
Outro pilar da tese da Ghia é a trajetória insustentável da dívida pública brasileira sob as atuais condições. Com um juro real constante em 7,5%, crescimento do PIB de 2% e superávit primário de 0,5%, a dívida pública se torna inadministrável. Nem mesmo elevar o superávit primário para 1,5% seria suficiente para reverter o quadro. “Por bem ou por mal, vai ter que ter um ajuste”, afirma Arantes. “O nível de juros que a gente tem hoje torna a dívida pública insustentável.” A conclusão é que esse ajuste virá, inevitavelmente, pela queda dos juros reais, e os investidores posicionados nas NTN-Bs colherão os frutos dessa convergência.
A Convexidade Rara do Tesouro IPCA+
A gestora destaca a “convexidade rara” do Tesouro IPCA+, que oferece um perfil de risco-retorno assimétrico e favorável ao investidor. Em um cenário de precificação já pessimista, o carrego dos títulos fica em torno de 12%, abaixo do CDI, mas longe de ser uma “tragédia”. Se o cenário macroeconômico melhorar e os juros reais caírem, o upside é relevante. E, em um cenário de piora inflacionária, a indexação à inflação protege o capital do investidor, atuando como um seguro.
A Visão do Especialista
A análise da Ghia Multi Family Office sobre o Tesouro IPCA+ oferece uma perspectiva instigante para os investidores em busca de valor. A discrepância entre os juros reais praticados no Brasil e o risco-país percebido, especialmente em comparação com outras economias emergentes, é um ponto que merece atenção. O argumento de que a dívida pública brasileira é insustentável com as taxas atuais adiciona peso à tese de uma inevitável queda nos juros reais. Para o investidor médio, isso significa uma janela de oportunidade para buscar retornos acima da média e com proteção inflacionária. Contudo, como sempre no mercado financeiro, a prudência é fundamental. A escolha de vencimentos intermediários, como sugerido pela Ghia (2030-2032), parece ser a estratégia mais equilibrada para capturar o potencial de valorização sem se expor excessivamente à volatilidade dos títulos de longuíssima duração. É um momento para analisar com cuidado, mas com uma clara inclinação para a busca de ganhos de capital em um ativo que, historicamente, tem sido um porto seguro contra a inflação.